dengo

Tu de primeira me mostrou seus hábitos mais estranhos e me convidou para sua varanda. Sentamos nos degraus e passamos horas conversando, o céu se tornou laranja e logo depois se tornou negro. Era madrugada, você precisou levar tua mãe ao hospital e eu te fiz companhia. Só saí para dormir quando me certifiquei que teu sono estava tranquilo. Quando voltei, os tempos já não eram mais os mesmos.

Vez ou outra, me pego encarando sua varanda. Ocasionalmente vou lá e me sento, sozinho, torcendo pra você não perceber. Secretamente meu maior desejo naqueles momentos era que tu me notasse e vinhesse se juntar a mim, me fazer companhia de novo. Obviamente eu tentava reprimir esses pensamentos, mas sempre me pegava voltando pra tua varanda, me perguntando por que tu nunca me deixou entrar. Dar aquele grande passo de girar a maçaneta e atravessar a soleira. Te conhecer. Entrar na tua vida. Fazer morada.

 

 

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alexandria

Ouvi tua voz de novo depois de muito tempo. Me parecia um eco ou só mais uma lembrança minha vindo a tona, mas era você, na minha frente, em carne, osso e com o mesmo charme de sempre. A mesma grosseria de sempre também, não posso esquecer.

E eu queria te dizer que eu ainda existo. Que respiro, mas que já não passo tão bem. Que ainda lembro de você, vez por outra. A imagem do teu sorriso ainda me derruba e no final das contas, nada mudou. Continuo com as mesmas manias de quando a gente se conheceu e ainda sinto vergonha delas. Você também continuou com sua mania de querer me aproximar mesmo sabendo que isso me dói, e muito. Mas apesar de tudo, eu queria te agradecer por tudo. Por tu existir e por tudo que passamos. Você ainda é muito importante pra mim.

Tu é meu caos preferido, lembra?

Se não lembrar tudo bem, essa frase ainda está gravada em metade dos ônibus dessa cidade.

vício – phill veras

Você provavelmente não lembra, mas era início de tarde e estávamos no condomínio de um amigo. Havia muita tensão emocional lá em baixo, então eu subi pra a cobertura para fumar, e você me acompanhou. Sentamos em silêncio por muito tempo, e eu coloquei uma música para tocar, ela era calminha e combinava com a gente, principalmente naquele momento específico. A gente mal se olhava, então eu tentava enxergar o limiar dos prédios ao redor.

Sabe quando você tá na praia olhando o horizonte e fica analisando onde começa o mar e termina o céu? Aquela linha que as vezes é bem difícil de ver, mas que se analisar bem, tá ali.  É disso que lembro quando penso nesse dia, no nosso limiar, e em como nós sabíamos que o fim estava próximo, mas preferíamos adiar. Admito que, se tu fosse o mar e eu o céu, eu adoraria chorar em você, pra tu poder levar contigo uma parte de mim pra onde quer que suas águas te levassem.

Quando entrelaçamos nossos dedos, a cada pulsação, eu sinto como se os dedos se juntassem mais e mais, em um ritmo ordenado. Essa ideia de uma aproximação cada vez mais iminente me apavora, afinal, o que vai acontecer quando estivermos juntos demais? E se nossos dedos se pressionarem tanto uns contra os outros que acabem cortando a circulação? Cortaríamos o laço e voltaríamos a circular normalmente como se nada houvesse acontecido, ou transformaríamos nosso laço em um nó, deixando os nós dos nossos dedos brancos de tanto esforço, só para não nos desatarmos?

bom..

Quando se está sensível demais, há um problema: você pensa,
e pensando, bem, meu bem, eu percebi que eu, eu não te faço nenhum bem. Eu te consolo, mas na maioria dos casos, apenas te provoco. Afinal, sou tão bom assim pra você quanto eu penso que sou?

Eu te faço ficar em minha casa como se tu morasse aqui, mas você não gosta, admito que até eu, as vezes, não gosto, mas sou carente demais pra te deixar ir. Não sei o que fazer. Minha casa não é seu lar, meu lar é só mais um local vazio e nós somos jovens demais pra tudo isso. Você não pertence aqui mas se esforça pra isso, mesmo que isso te machuque. Mas faço algo verdadeiramente bom por você, pra tu ter que passar por isso? Eu não sei mais. Eu não sei de nada.

Não gosto de enxugar minhas lágrimas, gosto de sentir elas escorrerem. Gosto de enxugar as suas com meus lábios, beijando todo seu rosto, exceto a boca.  Desse jeito posso provar suas piores dores e seus maiores anseios. Quando beijo sua boca consigo saborear seus maiores desejos, mas sempre acabam se misturando com as lágrimas e fica tudo muito confuso. Muitas sensações. Acaba sendo intenso demais pra mim.

No final das contas, tudo que faço acaba sendo baseado naquele filme que tem como moral de que, no final das contas, nós só queremos sentir alguma coisa, não importa o custo.

                                                                                                                  Me desculpa, por tudo.

Tem algo aqui que não importa o quanto eu vomite, não consegue sair. E isso é bom, por que assim você não sai daqui. A parte ruim é que não consigo te escrever. Não consigo dizer o quanto gosto de sentir você pressionar minha pele, nem o quanto gosto de quando tu me beija o pescoço. É como se houvesse um bloqueio e tudo o que eu viva contigo, tenha de ser apenas vivido, não escrito. As vezes penso que você existe apenas nas minhas memórias. Nas melhores delas. Nas mais despidas também.

Sem mais rodeios: me fode.

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Eu não entendo muito bem. resumindo tudo, é só isso. Não consigo entender a mim, a você, e nem a nós. E eu queria saber falar de outra coisa, mas sempre acabo voltando pra esse mesmo assunto, me perdoa. Também não consigo entender muito bem meus pensamentos e como eles funcionam. E eu espero que um dia eu possa entender o que a gente foi e como isso aconteceu, sabe?

Como quando, alguns anos depois, aquela fagulha acende na nossa mente e a gente finalmente percebe onde errou e como errou, exatamente que nem aquela paixonite lá do ensino fundamental II que destroçou teu coração tentou se aproximar, mas que você a afastou.

A gente nunca consegue perceber isso na hora né? É sempre muito depois, e a parte boa disso, é que depois nem dói mais, só dá uma saudadezinha e uma paz no coração de saber que assim foi melhor para os dois.