vício – phill veras

Você provavelmente não lembra, mas era início de tarde e estávamos no condomínio de um amigo. Havia muita tensão emocional lá em baixo, então eu subi pra a cobertura para fumar, e você me acompanhou. Sentamos em silêncio por muito tempo, e eu coloquei uma música para tocar, ela era calminha e combinava com a gente, principalmente naquele momento específico. A gente mal se olhava, então eu tentava enxergar o limiar dos prédios ao redor.

Sabe quando você tá na praia olhando o horizonte e fica analisando onde começa o mar e termina o céu? Aquela linha que as vezes é bem difícil de ver, mas que se analisar bem, tá ali.  É disso que lembro quando penso nesse dia, no nosso limiar, e em como nós sabíamos que o fim estava próximo, mas preferíamos adiar. Admito que, se tu fosse o mar e eu o céu, eu adoraria chorar em você, pra tu poder levar contigo uma parte de mim pra onde quer que suas águas te levassem.

Quando entrelaçamos nossos dedos, a cada pulsação, eu sinto como se os dedos se juntassem mais e mais, em um ritmo ordenado. Essa ideia de uma aproximação cada vez mais iminente me apavora, afinal, o que vai acontecer quando estivermos juntos demais? E se nossos dedos se pressionarem tanto uns contra os outros que acabem cortando a circulação? Cortaríamos o laço e voltaríamos a circular normalmente como se nada houvesse acontecido, ou transformaríamos nosso laço em um nó, deixando os nós dos nossos dedos brancos de tanto esforço, só para não nos desatarmos?

bom..

Quando se está sensível demais, há um problema: você pensa,
e pensando, bem, meu bem, eu percebi que eu, eu não te faço nenhum bem. Eu te consolo, mas na maioria dos casos, apenas te provoco. Afinal, sou tão bom assim pra você quanto eu penso que sou?

Eu te faço ficar em minha casa como se tu morasse aqui, mas você não gosta, admito que até eu, as vezes, não gosto, mas sou carente demais pra te deixar ir. Não sei o que fazer. Minha casa não é seu lar, meu lar é só mais um local vazio e nós somos jovens demais pra tudo isso. Você não pertence aqui mas se esforça pra isso, mesmo que isso te machuque. Mas faço algo verdadeiramente bom por você, pra tu ter que passar por isso? Eu não sei mais. Eu não sei de nada.

Não gosto de enxugar minhas lágrimas, gosto de sentir elas escorrerem. Gosto de enxugar as suas com meus lábios, beijando todo seu rosto, exceto a boca.  Desse jeito posso provar suas piores dores e seus maiores anseios. Quando beijo sua boca consigo saborear seus maiores desejos, mas sempre acabam se misturando com as lágrimas e fica tudo muito confuso. Muitas sensações. Acaba sendo intenso demais pra mim.

No final das contas, tudo que faço acaba sendo baseado naquele filme que tem como moral de que, no final das contas, nós só queremos sentir alguma coisa, não importa o custo.

                                                                                                                  Me desculpa, por tudo.

Tem algo aqui que não importa o quanto eu vomite, não consegue sair. E isso é bom, por que assim você não sai daqui. A parte ruim é que não consigo te escrever. Não consigo dizer o quanto gosto de sentir você pressionar minha pele, nem o quanto gosto de quando tu me beija o pescoço. É como se houvesse um bloqueio e tudo o que eu viva contigo, tenha de ser apenas vivido, não escrito. As vezes penso que você existe apenas nas minhas memórias. Nas melhores delas. Nas mais despidas também.

Sem mais rodeios: me fode.

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Eu não entendo muito bem. resumindo tudo, é só isso. Não consigo entender a mim, a você, e nem a nós. E eu queria saber falar de outra coisa, mas sempre acabo voltando pra esse mesmo assunto, me perdoa. Também não consigo entender muito bem meus pensamentos e como eles funcionam. E eu espero que um dia eu possa entender o que a gente foi e como isso aconteceu, sabe?

Como quando, alguns anos depois, aquela fagulha acende na nossa mente e a gente finalmente percebe onde errou e como errou, exatamente que nem aquela paixonite lá do ensino fundamental II que destroçou teu coração tentou se aproximar, mas que você a afastou.

A gente nunca consegue perceber isso na hora né? É sempre muito depois, e a parte boa disso, é que depois nem dói mais, só dá uma saudadezinha e uma paz no coração de saber que assim foi melhor para os dois.

Juro

Serei breve: Não vou te mandar flores com um bilhete nem te mandar mil cartas de amor. Não me declararei em público. Esquecerei o nome daquela tua avó lá que tu vive falando sobre. Tentarei te mudar constantemente, felizmente, pra melhor. Tentarei te acalmar em momentos de crise. Tentarei te foder sempre que os beijos estiverem bom demais pra me contentar. Vou roubar teu perfume na calada da noite só pra depois poder derramar um pouco em meu travesseiro. Vou esquecer de te responder e só perceber horas depois. Vou te ligar chorando te pedindo pra vir me consolar e te mandar embora quando você chegar. Vou fazer você ter ódio da minha cara.

Mas juro que mesmo com tudo isso, as coisas boas e as ruins, tudo o que não faço por mal e o que faço por pirraça: quero que essas coisas sejam com você.

Tu é meu caos preferido.

Eu sinto falta do teu calmo caos, que só é calmo até explodir em mim. E eu implodo, só pra não te deixar escapar. Eu me torno um buraco negro, só pra te manter perto de mim.

Cadê você? Eu não consigo mais distinguir teu caos do meu. Eu não sei se esse braço é meu ou teu, ou se essa lágrima foi minha ou sua, ou se aquele sorriso foi teu ou meu. E eu não consigo por que eu te prendi dentro de mim e você se alojou. Me fez tua casa.

Não sei até que ponto te sufoquei ou até que ponto você suportou, só sei que não consigo diferenciar “eu” de “ti”, ou até mesmo “nós”. Pra mim essas palavras são todas a mesma coisa. Fiz tanta pressão que nos fundimos e nos tornamos um.

Por favor não se mude nem tente escapar. Nasça cresça e morra comigo. Seja mais do que uma parte de mim, porque temo que você seja mortal. Mesmo assim, te asseguro de que você não morrerá aqui dentro de mim. Porque tudo de mim já é você.